Lá pelos 6, 7 anos, o sonho de muitas crianças passa por ter uma bicicleta vermelha, com um guiador brilhante e uma campainha, para poder pedalar nos pátios e jardins na companhia dos colegas e amigos, sempre em alegre algazarra e pulgente felicidade. Se fizermos uma introspecção à nossa infância, cedo descobriremos que também passamos por essa fase, uns sem nunca terem tido hipótese de concretizar tal sonho, outros tiveram mais cedo ou mais tarde o desejo tornado realidade, outros ainda, granjearam tal afeição que ainda hoje são adeptos fervorosos da bicicleta.
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Há cerca de 30 anos atrás, surgiu esse desejo a duas irmãs, de terem uma bicicleta só delas para poderem pedalar com as amiguitas lá do bairro. Tempos dificieis eram esses, mas o pai, solicito no pedido das petizes, propôs-lhes dar uma mesada que juntariam progressivamente, até que tivessem a quantidade de escudos necessários para tal aquisição. E no Natal seguinte o sonho tornou-se realidade - bem juntinho ao pinheiro brilhava lá uma Órbita M 20 Maxi, prontinha a rolar.

Esta bonita Órbita foi durante os anos da infancia e puberdade uma fiel companheira de brincadeiras destas duas meninas. À vez, porque o dinheiro não dava para adquirir duas, lá iam pedalando, primeiro na Quinta das Pedras e mais tarde na Quinta do Amieiro, desfrutando daquele que é um dos mais saudáveis brinquedos e agora tão posto de lado pelas Playstations e computadores que dominam os interesses da pequenada de hoje .
Mas tudo tem o seu tempo de glória - com o passar dos anos, as meninas cresceram, tornaram-se adolescentes e os interesses também mudaram - as mini-saias comecaram a fazer parte do traje habitual, as brincadeiras passaram a ter um carácter mais juvenil e os "passarinhos verdes" começaram a aparecer no circulo das amizades. Consequência directa - a Órbita passou a estar em segundo plano, depois em terceiro plano, depois em plano a perder de vista e tornou-se um "mono". E os "monos" têm sempre um destino comum - vão parar ao fundo da garagem ou ao sotão poeirento, o que foi o caso desta.

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Foi ai que a encontrei à cerca de 9 anos atrás durante a mudança de casa dos meus sogros. E logo ali me deu complacência, ver assim aquela bicicleta caida, tipo traste. Mas o meu sogro decidiu levá-la para a quinta, lá prós lados da Tapada das Figueiras, com o intuito dos netos poderem andar com ela. Com poucos mimos, foi lá que permaneceu este tempo todo, degradando-se cada vez mais, sendo empurrada de barracão para barracão até que um dia o destino lhe foi traçado - "Estás aqui, estás no lixo!..."
.Foi ai que me decidi e propûs-lhe levar o "empecilho" dali para fora. Levava-a para a minha garagem, repararia-a e depois poderia servir para os netos conforme seria seu desejo. E a proposta foi aceite. À cerca de três meses atrás a Órbita passou a figurar na minha garagem.
O primeiro passo rumo ao retorno desta velha glória passava por obter alguma informação sobre a mesma, existência de peças que necessitavam substituição e igualmente a aquisição de simbolos e autocolantes com a marca. Começei então por contactar a marca - Órbita, bem portuguesa por sinal, até no atendimento ao público. Ainda dizem mal do funcionalismo público. O privado não lhe fica nada a dever. Depois de uma dúzia de mails sem resposta e alguns telefonemas que não iam dar a lado nenhum decidi que não valia a pena insistir... A titulo de exemplo só contactei a Scott uma vez por mail e prontamente me responderam em inglês e português, com catálogos, autocolantes e sei lá mais o quê. Aqui, no meu próprio pais, uma empresa da qual fui cliente nem se dá ao trabalho de me dar uma resposta simples...Tricas!...

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Passei então revista ás casas de bikes da cidade e vi que havia material suficiente para avançar. E o passo seguinte foi começar a desmontar, catalogando as peças para que no final não houvesse sobras, ao mesmo tempo que fazia uns desenhos sobre como funcionavam as coisas, sempre acompanhados por fotos da desmontagem. E que bom jeito deram na altura de montar e tirar dúvidas sobre como encaixavam as diferentes peças.
.O passo mais dificil foi desmontar o eixo do movimento pedaleiro, porque na altura ainda não tinha chaves adequadas para tal. Valeu-me a ajuda de um dos mecânicos da cidade e um proveitoso torno que tirou as teimas ao dito. Já a cassete/carreto apresentava para além das esferas bem picadas, um dos linguetos partidos pelo que a sua substituição se impunha. O resultado de trinta anos estava agora à vista - ferrugem no quadro, cromados baços ou enferrujados, pneus trilhados, cintas literalmente a desfazerem-se, cavilhas teimosas desfeitas a berbequim e uma massa verdadeiramente consistente ou melhor, resistente que nalguns casos teve que ser retirada quase a escopro! Apesar de tudo as esferas tanto dos eixos como do movimento pedaleiro estavam boas, sem necessidade de substituição, assim como a caixa de direcção apresentava ainda os "rolamentos" bem fixos e sem grandes folgas nas esferas.


Estando o quadro e respectiva forqueta livre de peças passei para a fase de o lixar quase até ao "osso" para depois lhe dar o primário antecedente à pintura. Munido depois de um compressor, tintas e endurecedores passei à fase de pintura, recorrendo á garagem lá da quinta, porque aquilo faz uma tal porcaria que só visto. O resultado não ficou brilhante porque uma qualquer incompatibilidade entre o primário e a tinta fez aquilo ficar tipo casca de laranja, mas para mim e para a primeira vez que pintava á pistola estava perfeito.

Passei então aos cromados, bem munido de um conjunto completo de "brochas", berbequim e algumas horas de paciência e ficaram catitas. Verniz de metal para cima e estavam prontos a montar.

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Agora começava o quebra cabeças da montagem. Apesar do braço empenado que não me dava muito "espaço" de manobra, lá começei esta tarefa bem acompanhado pelo meu petiz que já começa a ter interesse por estas coisas de duas rodas e que acabou por dar uma ajuda preciosa. O primeiro passo foi montar o cavilhão da dobradiça do quadro, logo seguido do movimento pedaleiro, sempre às voltas com a massa consistente.
.Logo de seguida foi a forqueta e a respectiva caixa de direcção, passando depois ao carreto, eixos, fitas, câmaras de ar e pneus. A desempenagem da roda traseira que parecia um ovo ficaria para o fim... se fosse capaz!


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Guarda lamas, travões, porta-bagagens e descanso seguiram o mesmo destino, sempre auxiliado pelas notas que tinha tirado quando da desmontagem.


Começava a tomar forma. Chegava agora a vez de colocar os pedais, cada qual do seu lado respectivo senão desapertavam-se e encavilhar os crancks no respectivo eixo, com cavilhas de 9,5 mm, porque as mais recentes (9mm) passavam-se.

Já em posição normal passava aos cabos de travão, afinação grosseira e montagem dos respectivos manípulos e punhos no guiador, que exibia orgulhosamente a marca bem gravada no avanço integrado. Já parecia uma bicicleta. Para não magoar o rabinho, um selim novo, rigorosamente igual ao anterior, completava o quadro.

Faltava agora a dor de cabeça - desempenar a roda, que me levou à vontade uma hora, tal era o empeno que tinha. Ainda não está perfeita por falta de um raio que ainda não consegui arranjar, mas já está adequada para dar umas voltas comigo em cima.

E aí estava a minha primeira clássica prontinha rolar!


Integralmente recuperada por mim, sem ajudas de monta externas, tinha um sabor a vitória e deu cor garrida aos meus dias cinzentos de molho em casa por causa do braço. Mais. Contribuiu para ver despertar o interesse do meu pirralho pelas gingas, e com o qual começei já a partilhar conhecimento, apesar dos seu modestos 6 anos. Foi assim comigo e com o meu pai há muitos anos atrás e se Deus quiser será assim também com ele. O valor da bike será menor que nada, os gastos ainda foram razoáveis, mas por nada deste mundo a faria agora mudar de mãos. O valor sentimental é agora incálculável. Foi bonito ver um brilho especial nos olhos da minha mulher, quando, quase por surpresa lhe apresentei a bicicleta da sua infancia, assim como nova. Venha a próxima!

Fiquem bem!
FMike