Vivemos actualmente num tipo de sociedade cada vez mais nuclear, encerrada em si própria, a olhar para o seu umbigo, em que o valor máximo é uno e resumido ao homem/pessoa na sua individualidade, relegando para segundo plano os que com ele cruzam no seu quotidiano.
Assim, ter amizades duradouras, francas, sem interesses nem segundas intenções que não sejam única e exclusivamente, estar com o(s) meu(s) amigo(s) em bom convivio, é um PREVILÉGIO, cada vez mais "caro" e "raro" de alguns, cada vez menos, afortunados.
Considero-me um desses afortunados.A amizade franca é isto mesmo - partilhar o pouco que temos, com aqueles com quem gostamos de estar, transformando momentos "banais", naqueles episódios memoráveis ou aventuras de convivência e partilha, dignas de mais tarde recordar, quem sabe com os pés ao borralho da lareira e um neto ao colo.
Sou um afortunado porque felizmente tenho não um nem dois, mas uma mão cheia de amigos, capazes destes feitos, destas partilhas, destas convivências - O Abilio todos os anos nos convida para uma travessia gastronomica rumo ás Termas, o Filipe e o Sales levam-nos ao expoente do convivio familiar, o João Afonso multiplica os singles em aniversários blogistas, o AC lança desafios para raids epicos e claro o Agnelo leva-nos a paragens cuja a objectiva fotografica, regista incansavelmente, o de melhor que a natureza tem e dá.
Este 1.º Passeio T&L foi bem um exemplo desses - previlégio ao convivio entre bons companheiros, á paisagem indiscritivel digna de um portfolio famoso, a bons momentos de BTT em aventura, sempre em tom outonal e claro com um cheirinho indelével a mini-GeoRaid. Muito bom!
O desafio tinha já alguns dias, com um bom grupo a chegar-se á frente para o aceitar, pleno das dificuldades que um passeio tem nesta zona, mas consciente que para poder apreciar, ás vezes é preciso "sofrer" um bocadito! Haja perninhas!
A meteorologia era o grande entrave e até á véspera a indecisão era muita. Mas arriscamos e ainda bem que o fizemos. Apanhar as paisagens da Serra tal como elas estão é mesmo uma questão de sorte num intervalo de tempo limitado.... mais alguns dias e já não apanhavamos nada isto!
Se virassemos o olhar para o vale glaciar em direcção ao maçico central viamos que o céu estava agora carregado de cinzento e que a chuvinha molha-parvos começava a engrossar, ao ponto de ao chegarmos á ponte do viveiro das trutas, a coisa já ir um pouco diluviana, tanto no ribeiro, como em cima das nossas cabeças... mas a paisagem já encantava e subida que começava em direcção ao Poço do Inferno só veio a comprovar isso!
O Outono está ai em grande força! Á medida que nos aproximavamos da belissima cascata deste monumento natural, as cores quentes das folhas caducas, misturavam-se com os raios de sol que iam aparecendo, emprestando a todo cenário, uma paisagem digna de uma tela de um talentoso pintor... tudo á nossa volta cheirava, sentia-se, vivia-se na intensidade desta estação... indescritivel!
Já na cumeada e com o Vale da Amoreira a nossos pés, começou a cheirar a petisco á malta que ia assobiando pro lado a vontade de desgustar algo mais sólido, pelo que a descida, já por si bem acentuada, acrescentou adrenalina o sangue e foi vê-los desmandados por ali abaixo até á aldeia! É daquelas descidas de deixar um sorriso de orelha-a-orelha!
Eu, fiel ás minhas sandochas XXL, aviei-me em casa com 3 belos exemplares para o passeio, mas a malta, já sentada na solarenga esplanada da casa de pasto Ideal, afiambrou-se ás sandochas de queijo da serra, que foi um espectáculo! Como se não bastasse, lá dentro a visão dos petiscos disponiveis começou mesmo a fazer perigar a continuidade do passeio, pois já havia convictos a querer ficar ali... os peixinhos fritos, a febra a palitar, maçãs de borla!.. Vamos lá embora que isto ainda não acabou!
À saida do Vale da Amoreira, esperava-nos agora a subida mais longa do dia em direcção á Quinta do Fragusto, sempre em pendente ascendente ao longo de alguns quilómetros. Esta subida era já minha conhecida do Geo-Raid, mas contudo não foi menos bela... aliás, toda esta zona apresenta-se agora distinta, diferente, sob o dominio das cores outonais, parecendo que o trilho era outro, completamente diferente.
No começo da descida que nos levaria á Sra da Acedasse o "caroço" da Santinha escondia-se á nossa frente, num manto de nuvens carregadas de chuva, a avisar-nos que iamos molhar o corpinho... nada que nos fizesse vacilar, até porque a aventura aproximava-se do fim e a malta ansiava já pelos prometidos petiscos.
Em boa velocidade pois a pendente era descendente, lá nos aproximamos do inóspito mas bonito santuário, onde viramos á esquerda em direcção ao Covão da Ponte, onde na derradeira subida tivemos um episódio cómico, com dois putos montados nas suas Órbitas FF (ferro forjado) fizeram ver aos maganos e se desembestaram-se pela subida acima fazendo algumas ultrapassagens ao pessoal que vinha mais recuado, sempre com uma ar de superioridade como que a mostrar como é que se anda de bike por aqueles lados! Ehehehehe!
Com a chuva a cair cada vez mais forte e sempre em pendente descendente a velocidades quase proibitivas, daquelas de fazer bater rápido o coração, tive, já mesmo no final da descida o único precalço do dia, ao ficar preso pelo braço numa das "silvias" de uma parede, desiquilibrando-me, levando-me a dar uma verdadeira "palhaça" directa ao chão, "esfarrapando" o resto do meu impermeável... apesar de meio aparvalhado pela queda, levantei-me a rir perante tal "desgraça"... Estavamos no fim de 56 km e eu já me queria deitar ali para a a sesta da tarde! Vá lá que a coisa se resumiu a uma esfoladela no braço e uma nódoa negra no dorso! Um abre-olhos! Para a próxima ponho as mãos no travão!
Em Manteigas a tarde caia triste perante tal chuvinha persistente, pelo que a malta lá se foi arranjando o melhor que pode para irmos direitinhos á casa de pasto Ideal, onde iriamos continuar o convivio ao calor da salamandra, nesta tipica tasquinha, repleta de um cheirinho de fazer crescer água na boca - queijo, chouricinha, febras a palitar e uns peixinhos de escabeche, soltaram nas papilas gustativas dos convivas um manancial de prazer gastronómico, acalmado pela cervejola e pela boa pinga tinta da casa... um lugar modesto mas que desde já recomendo para os apreciadores do petisco!.
P.S. - Agradeço aqui publicamente as fotos do Nelo e do João Afonso, que enriqueceram e de que maneira este post. Obg amigos! As poucas e de fraca qualidade que registei, seguem em slide.






